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R. Augusta: A sétima chave capítulo 6

 Tequila


Estava caída no chão sangrando por causa daquele desgraçado. A dor em minha perna era latejante.

Consegui retornar até minha cadeira para me sentar. Me servi um copo de whisky, rezando para que a queimação em minha garganta, fosse o suficiente para acabar com a minha dor física e mental.

O ferimento estava sangrando cada vez mais. Havia um armário ao lado de minha mesa. Com grande dificuldade, me levantei e fui em direção ao armário, com a esperança de encontrar uma caixa de primeiros socorros.

Ao abrir o armário, diversas pastas e papéis caíram no chão aveludado e surpreendentemente, uma caixa branca também caiu; a caixa continha alguns medicamentos e itens para limpeza de ferimentos. Me sentei ao lado de toda a bagunça que estava espalhada pelo chão e lentamente, limpei o ferimento.

Quando finalmente terminei, notei que ao meu lado havia um pequeno baú com os contratos de posse do bordel.

Não pude deixar de me lembrar de minha história com Caballero Negro, ou melhor, minha história com Márcio, o líder da gangue Los Calaveras Negras.

Eu morava em uma casa de dois cômodos quando era jovem, eu ainda não havia saído de casa. Certo dia, eu tive uma briga com minha mãe: eu tentava dizer a ela que seus vícios iriam matá-la, mas nunca tive sucesso. Nesse dia específico, eu estava exausta com todo o drama de minha vida e resolvi esfriar a cabeça andando pelos arredores de minha casa.

No momento em que saí de casa, Trix, a gata caramelo de minha vizinha, estava atravessando a rua quando um carro preto passou e a atropelou.

Eu fiquei sem reação e corri ao encontro da gata para tentar ajudá-la. Quando eu vi que ele estava fugindo, coloquei o frágil e gélido corpo da gata na frente da porta de minha vizinha e corri atrás do carro enquanto gritava para ele parar. Corri por dois quarteirões e quando o dono do carro percebeu que eu não iria desistir, ele estacionou o carro ao lado de uma calçada e veio ao meu encontro.

Sem fôlego algum e com a garganta completamente seca, consegui manter minha postura e demonstrei, mesmo ofegante, minha indignação com a situação. —Por um acaso você está ficando louco? Não pode deixar o animal naquele estado! — O que deveriam ser gritos frustrados, saíram como palavras entrecortadas e vacilantes.

Naquele tempo, tive tanta coragem que hoje em dia nem me reconheço de tanto medo que aquele homem me causa. Principalmente quando estava aqui em minha sala.

O homem alto, com cabelos ondulados e feição indiferente, usava um terno e tinha entre seus dedos, um charuto com uma essência peculiar adocicada.

Ele me observava como se eu fosse a coisa mais intrigante que ele já conheceu em sua vida.

 

— Você não vai dizer nada? Vai ficar parado me encarando? Escuta aqui cara, você pode achar que está sendo ameaçador com esse terno preto e charuto largo, mas acredite, eu não vou sair daqui até você colocar esse traseiro dentro do seu carro e ajudar aquela pobre gata. Você não tem ideia do que ela significa para dona e o quanto é amada. — Minha voz havia retornado e eu estava ganhando um tom avermelhado em meu rosto diante de tanto nervosismo.

 

O homem continuou me encarando até que seu olhar desviou para a mancha vermelha em seu carro.

— Garota, você correu atrás do meu carro por diversos quarteirões apenas para que eu levasse a droga de um gato para um veterinário?

 

Eu fiquei completamente descontrolada com sua fala.

— A droga de um gato? Como você ousa? Você acaba de abrir a boca e fala um absurdo desses?  Você não tem um pingo de bom senso? Qual é o seu problema seu grande idiota de terninho?

O homem não disse nem mais uma palavra. Apenas retornou para o seu carro e foi embora enquanto eu o ofendia por meio de diversas palavras maldosas e completamente enraivecida.

Quando retornei para casa, a dona da gata estava chorando em frente ao seu corpo.

 - Eu sinto muito Dona Joana, eu tentei ir atrás do homem que fez isso com ela, mas...- Dona Joana me interrompeu e, com sofreguidão, me agradeceu pelo esforço e disse que Trix estaria feliz pelo o que fiz por ela.

Dias haviam se passado desde o trágico acontecimento e as coisas estavam ficando cada vez mais complicadas entre mim e minha mãe. Ela levava todos os dias, um homem diferente para casa e durante a noite, os ruídos eram insuportáveis; eu estava evitando voltar para casa. Consegui um emprego noturno em um bar no centro da cidade, eu trabalhava limpando um hotel durante o dia e servia drinks para clientes em um bar durante a noite. O cansaço era evidente em minha face, mas eu preferia trabalhar quase vinte e quatro horas por dias do que ter que voltar para minha casa que, amigavelmente, apelidei de “pesadelo”.

Conforme os dias estavam passando, uma sensação estranha me causava desconforto: eu tinha a impressão de que estava sendo observada. Eu sentia como se alguém estivesse me observando dia e noite, a cada passo que eu dava, era como se eu estivesse cada vez mais próxima de meu stalker.

Certa noite, estava no início de meu turno no bar quando notei um rapaz com uma silhueta familiar.

Era o babaca de terno que matou a gata da minha vizinha.

E ele estava me observando fixamente. Foi quando eu percebi que era ele quem estava me tirando a paz e me causando arrepios; ele estava me seguindo.

Lentamente, o homem se aproximou do balcão do bar e pediu uma dose de tequila pura.

- O que você faz aqui? Veio passar com seu carro por cima de também e me deixar sangrando até a morte? – a raiva estava começando a transparecer em minha voz.

- Você deveria tomar cuidado com o que fala para mim, garota. – Ele tomou sua bebida de uma só vez e logo, ordenou outra.

- E por que eu deveria ter cuidado? Você é policial por acaso? – O homem deu uma risada forçada e tomou outra dose de tequila.

- Os tiras? Não querida, eu e aqueles rapazes não nos damos muito bem. Podemos dizer que, somos de lados opostos.

- Então você é o que, um ladrão em crescimento?

- Ora meu doce, sou muito mais do que um simples ladrão.

- Não me chame de “meu doce”. – O tom de deboche em minha voz estava explícito. O homem não respondeu, apenas tomou sua terceira dose de tequila.

- Quantos anos você tem garota?

- Por que está me seguindo?

- Responder uma pergunta com outra é falta de educação, querida.

- Eu não me importo, nunca tive quem me ensinasse o que é ter educação e você não é quem faz as perguntas aqui.

- Problemas com a família?

- Isso não é da sua conta. – Eu estava cansando daquele joguinho. – Por que você está me seguindo? – Perguntei novamente.

- Se eu te responder, você responde minha pergunta?

- Talvez. Vamos, diga logo o que quer comigo.

O homem soltou um suspiro longo enquanto brincava com o copo vazio à sua frente.

- Desde o dia que você correu feito uma maluca atrás do meu carro por causa de um gato, eu notei algo em você. – Ele deu uma pausa enquanto analisava minhas feições. Com certeza, minha curiosidade estava óbvia. – Você parece ser jovem, não mais que vinte anos, mas com uma força e determinação admiráveis. Nunca havia encontrado alguém com tamanha coragem de enfrentar um desconhecido, por uma situação que sequer ocorreu com você. Você me deixou intrigado, então, resolvi te observar. – As palavras não saiam de minha boca, cheguei a pensar que minha respiração estava prestes a se esvair de meu peito.

- Notei que você tem problemas com sua mãe, e que trabalha noite e dia para não ter que voltar para casa. Estou certo? – Eu estava incrédula, a única coisa que se passava em minha cabeça era o quão louco aquele homem era. Ao perceber a ausência de resposta, o homem continuou.

- Você está em busca de uma vida melhor e uma salvação para sua mãe, mas precisa de dinheiro para isso. – Eu era a única que sabia disso, nunca havia dito nada sobre minha vida para ninguém. – Eu conheço alguém que pode te ajudar, mas eu preciso que você responda a minha pergunta.

Após alguns segundo que pareceram uma eternidade, algumas palavras saíram de minha boca. 

- Como posso confiar em você? Você atropelou uma gata e estava me seguindo. Não me parece o tipo de pessoa em que eu possa chamar para frequentar a minha casa ou conviver comigo e minha mãe. – O homem estava sério e seus olhos ainda estavam fixos em mim.

- Eu não quero frequentar sua casa e nem dar uma de amigo gentil que todos adoram. Eu quero negociar com você. Quero que sejamos parceiros em algo que tenho em mente.

- Você não sabe quem eu sou e eu não sei quem você é. As impressões passadas até agora, não foram nada agradáveis. Você realmente espera que eu simplesmente negocie com um desconhecido mal-encarado de terno? – O homem ergueu sua sobrancelha e um sorriso maléfico surgiu em seu rosto.

- Você saberá mais sobre mim em breve. Eu posso te ajudar a ter uma melhor condição de vida, em troca de algumas coisas simples que se concordar, irei lhe pedir. Mas, para isso, tenho que saber a sua idade.

- Como você poderia me ajudar? – Não respondi sua pergunta, mas ele não desistiu.

- Me fale a sua idade.

- Fiz dezessete anos há duas semanas. – Respondi relutante.

- Ótimo. Você irá se encontrar com uma mulher chamada Tereza na Rua Augusta número 117. Marcarei um encontro entre vocês duas no dia 25 de agosto às 18h.

- Espera um minuto, eu não concordei com nada. Eu preciso saber onde estou indo e o que vou encontrar.

- Essa mulher é a dona de um bordel, mas fique tranquila, não é esse tipo de serviço que está esperando por você. – Após alguns tortuosos segundos, ele continuou. – Você trabalhará na administração do lugar juntamente à Tereza. A mulher está ficando velha e precisa de alguém que possa sucedê-la com segurança e de forma confiável. Mas, ao concordar, você estará trabalhando para mim, o que significa que quando o bordel estiver sob sua direção, parte dos lucros da venda de drogas, será meu.

- Espera, drogas? Não, nem pensar! Não quero me envolver com esquemas de tráfico.

- Não se preocupe, enquanto estiver ao alcance de meus olhos, nada acontecerá com você meu doce. – A forma como ele proferiu essa frase, me causou arrepios. – Encontre com Tereza e converse com ela, ela irá te explicar detalhadamente como funcionará. – O homem se levantou da cadeira que estava na frente do balcão, deixou o dinheiro das bebidas e caminhou até a saída.

- Espere! Eu tenho perguntas, você não pode simplesmente me falar esse monte de informação e ir embora sem mais nem menos!

- Vá até o local de encontro no dia e na hora marcada. Suas dúvidas serão esclarecidas. – E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o homem havia ido embora.

Voltei a realidade quando o whisky que estava ao meu lado, derramou-se sobre uma foto. Uma foto cheia de significados. Uma foto dela.

Lágrimas insistiam em descer por meus olhos, a dor da perda e da solidão, estava me assolando. Encarando a foto, passei meus dedos por seu rosto que hoje, não conheço mais.

- Droga querida, o que foi que você fez?

 


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