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A moça da sapatilha preta

   Hoje eu estou sentado naquela mesma lanchonete, olhando pelo reflexo daquele vidro que eu te vi pela primeira vez! Você estava lá sentada, de pernas cruzadas, balançado os pés com aquela sapatilha preta, como se estivesse impaciente, nos seus olhos qualquer um que te observasse, conseguia ver a sua indignação. Então do nada você levanta e caminha em direção ao balcão, retira a carteira da bolsa e paga o seu café, logo em seguida sai pelo corredor que se forma entre as mesas da lanchonete, e eu não consigo disfarçar o quão admirado fiquei em observar-te.
    Mas agora sinto-me apenas alguém que vive de lembranças, pois quando eu estou em casa a cama é tão vazia sem você, os travesseiros não têm mais o seu cheiro, parece que acordar pelas manhãs e olhar aquela sapatilha preta em baixo da escrivaninha é um tormento, pois me lembro do seu riso, vou até à janela e observo aquela praça que um dia juramos levar os nossos filhos, mas olho ao redor e não tenho os filhos que um dia, nós prometemos ter, sinto-me tão pequeno e invadido pelo orgulho, que não sei como fazer pra resolver tudo isso.
    Espero que você compreenda um dia, que você deixou um vazio aqui, você não me deixou nem um bilhete, não me deu sinais, não expressou as suas frustrações, apenas fez as suas malas e foi embora, quando cheguei e vi o guarda-roupa vazio eu não pude acreditar, que aquele sonho que vivemos, acabou tornando-se um pesadelo, não tinha o seu cheiro na casa, as suas loucuras, as suas manias, tinha apenas a dor de olhar as suas sapatilha em baixo da escrivaninha e ver o seu sorriso estampado sobre as minhas lembranças.





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