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R. Augusta: A sétima chave

Segredos do Passado

Mais uma vez, me remexo na cama. Não consigo dormir. Hoje é meu aniversário e não suporto essa data. Não tenho nada para comemorar. Minha vida nunca foi das melhores; sempre marcada por brigas e agressões. São três horas da madrugada, eu preciso dormir. O dia de amanhã aguarda para ser enfrentado, mas minha mente insiste em retornar para aquela noite fatídica de 1998.
Minha mãe tinha apenas 19 anos quando conheceu meu pai e em menos de dois meses, passaram a morar juntos. Certo dia, minha mãe descobriu que estava grávida de um cara com quem ela costumava trair meu pai enquanto ele trabalhava nas quartas-feiras, e durante 5 anos ele acreditava que eu era filha dele, mas a minha aparência dizia o contrário: eu não parecia nada com ele, apenas com a minha mãe. Ele pediu um exame para saber se de fato, eu era filha dele. O resultado deu negativo. Minha mãe tentava convencê-lo de que deveria haver algum engano, mas de nada adiantou. Aquela era a única prova que ele precisava para confirmar suas suspeitas. Ele estava furioso. Eu estava debaixo da cama, ouvindo os gritos da discussão entre ele e minha mãe. Eu estava assustada. Eu só queria ter uma família normal. 
Ele resolveu ir embora de casa e nos deixou sozinhas; quem sustentava a casa era meu "pai" e ele levou todo o dinheiro e só deixou a casa para nós. Minha mãe não conseguiu arrumar um emprego fixo. As dívidas estavam aumentando e os trabalhos temporários não estavam sendo suficientes para sequer, colocar alimento em casa. Ela estava em uma corda bamba, não sabia mais o que fazer. Ela dizia que a culpa de tudo o que havia acontecido, era inteiramente minha, afinal, eu era resultado de uma traição, eu era um erro. Talvez se não tivesse nascido, muita coisa teria sido evitada. Aos 17 anos encontrei uma mulher que era a antiga dona e cafetina de uma casa noturna, enquanto buscava um emprego para pagar as contas da casa e ainda, tentar ajudar a minha mãe. Nós estávamos conversando sobre nossas vidas e o quão desastroso era nosso passado, e quando contei minha história, ela me fez uma proposta de trabalho, não me importei em saber os detalhes e logo aceitei. Talvez esse tenha sido meu primeito erro. Passaram-se os anos, nos tornamos muito próximas e viramos amigas. Ela comandava cada canto do lugar; me ensinou como sobreviver lá dentro e me mostrou como governar aquele reino de sexo, drogas e dinheiro sujo. Quando ela faleceu, eu me tornei chefe. O meu salário estava maior e eu estava ajudando minha mãe cada vez mais. Minha mãe ao invés de usar o dinheiro que eu lhe dava para comprar alimentos e pagar as contas, usava para comprar bebibas, e eu não sabia disso, até que diversas cartas de cobrança começaram a chegar pelos correios. Quando soube, fiquei muito irritada, tentei conversar com ela e tirar satisfação, disse que iria parar de dar-lhe dinheiro, se ela não começasse a colocar prioridades em sua vida, e ela se alterou, ficou mais irritada ainda.
 Ela não estava sóbria, como sempre, e me expulsou de casa, disse que eu jamais colocaria os pés lá novamente. Quando minha falecida amiga e chefe descobriu, logo me colocou para dentro do bordel, e passei a morar no lugar. Eu precisei me mudar para o trabalho, dormia em um quarto pequeno com uma cama e um minúsculo armário em que guardava meus poucos pertences. Eu continuava a trabalhar lá, e as vezes a minha mãe me procurava, para conseguir dinheiro e queria comprar as bebidas dela e falava que as contas estavam atrasadas, mas eu ainda tinha um coração, eu sentia pena de minha mãe, nosso relacionamento estava cada vez mais tóxico e desgastante, mas eu consiguia deixá-la para trás, então eu dava dinheiro para ela. Alimentava seu vício.Era aquilo que a fazia feliz. 

Eu estava contribuindo para a morte lenta de minha mãe, mas ela estava feliz.
E eu estava cansada.
Eu estou cansada.

O alarme de meu celular despertou, eu não dormi esssa noite, e isso não é uma surpresa. Preciso levantar, está na hora de voltar a trabalhar.

Comentários

  1. Amei, tadinha ela precisa trabalhar para ajudar a mãe porém a mãe não ajuda em nada, só dá mais trabalho. Gostei muito, a história está muito envolvente.

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  2. Amei, tadinha ela precisa trabalhar para ajudar a mãe porém a mãe não ajuda em nada, só dá mais trabalho. Gostei muito, a história está muito envolvente.

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  3. História incrível, cada dia que se passam estão melhores e mais envolventes... É lindo ver sua evolução

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  4. Nossa, acredito que ainda tem moças que passam por essas situações, que história em 🥺💔

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