Amarguras da vida II
Débora estava sentada de frente para o barman. Sua taça de vinho havia se esvaziado pela segunda vez.
A bela mulher de cabelos negros, conforme o álcool se espalhava pelo seu sangue, estava cada vez mais aérea.
— O ano era 1999. Eu ainda morava com minha mãe e meu padrasto em uma casa modesta de São Paulo. — Débora pede outra taça de vinho e observa o local ao seu redor.— Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha 16 anos e foi um ano após atingir a maioridade, que tudo mudou. Minha mãe conheceu o Marcos, meu padrasto, uma semana depois do meu aniversário de 19 anos. Era uma sexta-feira quando minha mãe precisou comparecer a um evento, ao lado de algumas de suas amigas mais próximas. Eu acabei ficando em casa com o meu padrasto. — Débora fixa seu olhar no de Carlos.— Nossa relação nunca foi muito boa, ele estava constantemente olhando as gavetas do meu quarda-roupa e fazendo insinuações sobre o meu corpo e acredite, naquela noite não foi diferente... — A ironia presente em sua voz, rapidamente foi tomada por tom melancólico.— Quando resolvi tomar banho, já era de madrugada e ele estava assistindo a um programa de basquete na televisão.
— Eu comecei a ouvir passos e eles estavam vindo do meu quarto e infelizmente, naquela noite, eu não havia trancado a porta do banheiro. Os passos ficavam cada vez mais próximos e eu conseguia ver a sombra dele, por uma fresta da porta. — Débora finaliza sua terceira taça de vinho.— Ele ficou parado durante algum tempo, mas assim que eu desliguei o chuveiro, ele começou a abrir a porta lentamente. Eu não sabia que ele ainda estava do lado de fora, pensava que ele havia ido embora. Muita ingenuidade de minha parte, não acha? — Débora não esperou a resposta de Carlos.— Eu apenas notei sua presença dentro do banheiro ao ouvir o som da fechadura sendo trancada. Eu estava paralisada pelo medo e comecei a sentir a respiração dele cada vez mais próxima de meu pescoço, então suas mãos tocam em meu quadril. E Carlos, foi nesse momento que eu percebi a gravidade da situação. Um pico de adrenalina percorreu todo meu corpo naquele momento, e eu finalmente consegui reagir... — Débora evita contato visual com Carlos, e passa a analisar a taça disposta à sua frente. — Eu desferi um chute em suas partes baixas — A mulher foi bruscamente interrompida.
— O que você quer dizer com "partes baixas?"— Carlos fez uma expressão de dor— Deus, diga-me que não é o que estou pensando.
— Carlos, o que você tem no meio das suas pernas? — Débora achou divertimento na situação.
O barman suspirou pesadamente e uma risada fraca escapou-lhe dos lábios, permitindo que Débora continuasse com sua história.
— Aquele desgraçado caiu no chão e estava com muita dor. Eu ganhei tempo, e consegui destrancar a porta; corri em direção ao meu quarto, coloquei a primeira roupa que encontrei, saí rapidamente da casa e pedi ajuda para minha vizinha. Eu fiquei lá até minha mãe chegar. Quando eu ouvi o som do carro de minha mãe sendo desligado, fui ao seu encontro e imediatamente contei o ocorrido. — Carlos colocou a mão em cima da taça de Débora.
— Você está girando essa taça de vinho de um lado para o outro há 10 minutos. Não deixe essa porcaria cair no chão, eu teria que vender a minha casa para conseguir comprar outra dessa. — Um sorriso escapou dos lábios de Débora. A satisfação de Carlos era evidente.
— Cale a boca e me deixe seguir com a história. A reação da minha mãe não foi nada como eu esperava: ela me chamou de mentirosa e me obrigou a sair de casa.
Eu fiquei dormindo na rua por 3 noites seguidas. Até que em uma noite, uma mulher veio até mim e disse que me levaria pra casa, eu estava com tanta fome e tão cansada, que eu não a questionei e nem expliquei a minha situação. Eu apenas aceitei.
A mulher me levou para a sua casa e depois de um tempo, ela adoeceu. Foi em seu leito de morte eu descobri que ela era a minha avó, e que ela a antiga dona deste lugar. Carlos estava de costas para Débora, enquanto organizava as bebidas de acordo com a frequência que eram pedidas.
— Isso ainda não explica como você veio parar nesse lugar. — O homem olha de relance com uma sobrancelha arqueada para a jovem mulher.
— A Elizabeth era amiga da minha avó e acabamos nos conhecendo quando ela a levava em casa. Nos aproximamos e ela me ofereceu esse emprego quando assumiu o lugar e em troca de meus serviços, eu posso morar aqui.
Um silêncio confortável instalou-se no ambiente e logo foi quebrado pela secretária.
— Sua vez barman, me conte a sua história.
— Querida, a minha vida é repleta de tragédias e decepções.— Carlos se serviu com uma garrafa de cerveja e abasteceu a taça de Débora com mais três quartos de vinho.— Eu morava com minha mãe em Minas Gerais. Nós havíamos recebido a notícia que meu tio estava desempregado e não conseguia mais pagar o aluguel de sua casa, e então nós nos oferecemos para abriga-lo em nossa casa. Depois de alguns meses, meu tio começou a se comportar de uma maneira estranha. — O barman sentou-se em uma cadeira que estava em frente à Débora e suspirou fortemente. — Certa noite, estávamos sentados assistindo a um filme enquanto esperávamos minha mãe chegar do trabalho. A campainha tocou e eu atendi a porta. Policiais invadiram a minha casa, em busca de drogas. — Carlos divertia-se com o olhar desconfiado de Débora.
— Eu tentei dizer a eles que não havia nenhuma droga e que eles estavam enganados, mas quando uns dos policiais saiu com a minha mochila que estava em meu quarto e me mostrou diversas embalagens lacradas de cocaína, todas as peças se encaixaram: a perda brusca de emprego do meu tio, seu comportamento estranho, eu soube que o meu tio havia armado aquela situação para que eu fosse preso no lugar dele e não tinha como negar que a mochila era minha, meus documentos estavam dentro da mochila. Eu fui levado para a delegacia. Consegui me soltar das algemas enquanto eles preenchiam a minha ficha e eu escapei. Nunca fui pego novamente. Mudei de aparência, de nome e consegui esse emprego.
Débora encarava Carlos perplexa. A mulher estava sem reação e o barman, divertia-se com as feições confusas e assustadas que a jovem fazia.
— Você está me dizendo que você é um foragido da polícia e que seu nome verdadeiro não é carlos? — O barman balança a cabeça positivamente. —Afinal, quem diabos é você?
— Querida eu posso ser quem você quiser. —Carlos deu um sorriso sacana e uma piscadela.
Antes que Débora pudesse responder, um cliente misterioso sentou-se na frente da bancada. O homem usava um chapéu preto que cobria todo o seu rosto, suas roupas eram igualmente pretas; seu perfume assemelhava-se ao cheiro de nicotina.
— Boa noite senhor. O que deseja?— Carlos perguntou cordialmente ao homem, como fazia com todos os seus clientes.
O homem olhou para o crachá que estava na camiseta de Carlos.
—Carlos. Agora esse é o seu nome? — O homem soltou uma gargalhada. Calafrios percorreram o corpo do barman. Uma risada tão familiar. Tão macabra.
— Parece que o passado voltou para te assombrar. — O homem misterioso tirou o chapéu, revelando sua verdadeira identidade. — Ora, onde está sua educação? Não dirá "olá" para o seu tio? Meu querido sobrinho.
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